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sábado, 18 de abril de 2015

Um bicha e milhares de idiotas

Fernando Dantas/Gazeta Press
Fernando Dantas/Gazeta Press
Não faltam motivos pra zoar Ceni; poderiam escolher um menos idiota
ÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔ… BICHA!
Desta vez aconteceu na nossa casa. Aconteceu no dia que foi o mais feliz do ano – e, se não estragou a esperada felicidade de ganhar um clássico com autoridade, deixou aquela mancha, igual ao tio inconveniente que bebe umas a mais e resolve “dizer umas verdades” no meio da festa de Natal. Foi deselegante. Foi desnecessário. Foi idiota. Cada tiro de meta para o SPFC me dava uma sensação horrível de vergonha, que eu não experimentei nem nos rebaixamentos, nem após a re-re-re-reeleição do Mustafá, nem ao ver Ivo e Pedro Carmona com a camisa 10.
Porque é idiota julgar alguém por sua identidade sexual. É idiota achar que essa identidade, ou qualquer outra, que diz respeito somente ao próprio indivíduo, é razão de insulto, motivo para deixar alguém ofendido. É idiota achar que um estádio é uma realidade à parte da sociedade, onde “é permitido” fazer um monte de coisas inaceitáveis socialmente em nome de uma vitória. É idiota dizer “não sou homofóbico” e mesmo assim ter entrado no coro. Como se tudo isso não fosse o suficiente, é idiota copiar um grito idiota da torcida de nosso maior rival, que inclusive o adaptou da torcida do Juventus (eles gritam “Filho da puta”), que por sua vez foi buscá-lo no México.
Nada contra ofender o Ceni (aliás, #ficaCeni). Só que tem uns 200 jeitos melhores de fazer isso – “Ceni c… reserva do Marcão” e “Frangueiro” são só as mais óbvias. (E convenhamos que um sujeito de 42 anos deve estar pouco se lixando pro que se fala nas arquibancadas, mas enfim.) Dizer “ele não é gay, não se ofendeu” é ainda pior, porque o problema desse grito não diz respeito ao alvo.
Como escrevi um ano atrás no Impedimento, quando os rivais fizeram a mesma coisa com o mesmo Ceni num jogo no Pacaembu, o problema é: milhares de pessoas, numa noite de quarta-feira, não se importaram em dizer ao Brasil todo, via satélite, que consideram que a identidade sexual de alguém serve para xingar, ofender e desestabilizar outra pessoa em seu ambiente de trabalho. Como se o Brasil já não permitisse a união civil homossexual, e que esses casais adotem filhos, como se a parada GLBT não fosse um dos maiores programas turísticos de São Paulo, como se vivêssemos na Idade Média. Como se maus costumes não pudessem ser modificados.
“Ah, não foi a torcida inteira”, acredito mesmo que não, inclusive tenho amigos que estavam no Allianz Parque e certamente não fizeram isso. Mas foram em número suficiente para que ficasse bem audível na transmissão da TV – e, por favor, sem teoria da conspiração de que “A Globo fez de propósito”, ao contrário, a Globo fez o possível pra ignorar e jogar o caso pra baixo do tapete, exatamente como nos jogos do SCCP.
“Você está me chamando de idiota? Não sou homofóbico, só entrei na onda”, ok, você não é idiota então, mas agiu como um ao emular um comportamento de turba. Se todo mundo estivesse arrancando a roupa na arquibancada, você arrancaria também? Jogaria pedras no Muricy?
“É só brincadeira, sempre foi assim, você nunca chamou são-paulino de bambi?” Sim, já chamei, não chamo mais. Mudar de comportamento é sinal de maturidade, o que “sempre foi assim” pode e deve mudar. Principalmente quando é uma “brincadeira” que mata pessoas. Homofobia mata. Não é questão de ser politicamente correto, é questão de ser uma pessoa correta.
Isso para não falar no ethos que deveria impregnar a nossa sociedade esportiva. O Palmeiras já foi o clube da inclusão, criado pelos italianos e que acolheu na sua arquibancada todo tipo de migrante quando São Paulo começou a se encher de sotaques e dialetos e gente de todas as cores, origens, saldos bancários e, também, identidades sexuais – ou vocês acham que ali no estádio é todo mundo hetero? Cem anos depois, não faz sentido o Palmeiras ser o clube da torcida que segrega e discrimina por causa de com quem a pessoa pretende dividir sua vida.
Estamos em 2015. Ficar com a mentalidade de décadas atrás só porque “sempre foi assim” não vai levar a nada. Só vai fazer a gente continuar a agir como idiotas.
(Em tempo: a demora na publicação dest post foi intencional. Ao mesmo tempo que, por ter criticado a torcida do pessoal de Itaquera naquela ocasião, me sentia na obrigação moral de comentar o assunto, ainda mais depois do vídeo da Gabi Moreira ter bombado nas redes sociais, não queria ser acusado de ganhar audiência gratuita no embalo do jogo e da confusão. Então, fica aqui, com 48 horas de análise e reflexão, e de longa discussão inclusive entre blogueiros do ESPN FC, a minha posição. Espero que dê para debater com inteligência.)

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